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Porque o arquiteto deve fazer a administração de obras

Por Arq. Me. Iberê Moreira Campos equipe


Os arquitetos vêm tendo dificuldade em estabelecer-se no mercado de trabalho, devido aos fatores que estamos enumerando aqui neste artigo. Mas a solução pode estar bem perto, o arquiteto precisa apenas fazer uso de suas prerrogativas legais e abranger mais áreas do que aquelas em que atua normalmente.

Dentre estas, a administração de obras é um campo promissor e bem mais lucrativo do que o de projeto, sendo que o arquiteto tem muito mais facilidade de ser contratado para fazer a obra uma vez que é um dos primeiros profissionais a ser contado por quem vai construir e conhece melhor do que ninguém o que vai ser construído. Veja porque o arquiteto pode (e deve) usufruir deste ramo de atividade, e como fazer para entrar nele.

O arquiteto está tradicionalmente ligado ao desenho, à funcionalidade e à estética das edificações. Seu trabalho fica num meio termo entre o rigor construtivo da engenharia e os conceitos de beleza herdados das tradicionais escolas de belas artes, devidamente reformulados pelos teóricos do século 20, sem falar de outros aspectos técnicos que têm mais a ver com ele do que com outras especializações como o conforto térmico, circulação, ventilação, insolação e o bem-estar humano como um todo.

Infelizmente, o mercado aqui no Brasil não dá a devida importância a este profissional tão especial que é o arquiteto o qual, salvo raras exceções, não consegue dar uma vida digna á sua família se tentar ganhar seu sustento restringindo-se apenas à essas atividades que lhe são normalmente atribuídas.

Devido justamente à essa dificuldade de conseguir estabilizar-se na profissão, depois da formatura acontece uma debandada dos recém-formados. Pela minha observação pessoal reparei que acontece mais ou menos assim: a maior parte dos que se formam em arquitetura acabam mudando de ramo, indo trabalhar em outras áreas mais rentáveis. Só alguns conseguem realmente atuar dentro de sua especialidade, aquilo para o que estudou e dedicou tantos anos de sua vida. Dentre estes, o que reparo é o seguinte:
  • Uma pequena minoria consegue entrar para o serviço público, nos cargos mais variados. Antigamente já foi mais fácil entrar para o serviço público, mas de uns 10 anos para cá os concursos são muito disputados e só mesmo uma elite é que consegue o tão sonhado cargo público.
  • Uma boa parte do restante, principalmente as mulheres, que precisam cuidar dos filhos, passam a encarar a arquitetura como hobby ou como complemento da renda familiar, e não mais como ocupação principal.
  • Os demais são justamente os que ficaram na carreira, porque gostam dela e porque conseguiram melhores condições de trabalho.
Principalmente neste último grupo é que acaba sendo necessário fazer uma difícil opção: trabalhar como autônomo ou arrumar um emprego fixo. Esta última possibilidade vem ficando cada vez mais restritiva, pois no mercado de trabalho o arquiteto é visto mais como um desenhista especializado do que como o grande profissional que realmente é.

Na equipe de uma construtora, por exemplo, quando esta vai construir um prédio de apartamentos o arquiteto recebe as especificações de projeto fornecidas pelo corretor de imóveis e pelo o engenheiro da obra e é obrigado a se virar dentro dos rígidos limites impostos por estes outros profissionais, adequando suas exigências às restrições legais.

Numa situação assim sobre pouco espaço para a criatividade, o arquiteto passa a trabalhar mais como um burocrata técnico que sabe lidar com o AutoCad e o Sketchup do que qualquer outra coisa. Além de ser frustrante, esta atividade como empregado ainda por cima paga muito mal – um pedreiro que trabalhe nestas construtoras e incorporadoras freqüentemente ganha mais do que o arquiteto, por isso só mesmo os recém-formados ou os felizardos que têm outras fontes de renda é que se sujeitam a este tipo de atividade.

Aos demais resta, portanto, a alternativa de trabalhar por conta, assumindo todos os riscos do mercado que valoriza, igualmente, o construtor e o engenheiro mas não o arquiteto, como deveria ser, afinal o arquiteto é o especialista que vai estudar a melhor forma de ocupar determinada área para que a construção atenda a tudo o que dela se espera, com economia, beleza, praticidade e conforto ambiental.

É comum as pessoas pensarem na construção apenas como um empreendimento, esquecendo-se de que aquele edifício vai abrigar seres humanos, que vão exercer suas atividades naquele espaço durante décadas a fio. Nesses prédios que são feitos às pressas, pensados apenas como obras comerciais de engenharia, é comum logo nos primeiros meses surgirem os “puxadinhos”, “reformas” e as “ampliações”, porque o projeto inicial não foi bem pensado e várias necessidades dos usuários não foram previstas e muito menos resolvidas. E isto acontece em todos os tipos de edificação, sejam elas do tipo residencial, comercial ou industrial.

Se soubessem da situação do mercado de trabalho e se pensassem apenas no dinheiro muitos arquitetos não teriam entrando numa escola de arquitetura. A situação fica ainda pior para os profissionais que tiveram o azar de cursar algumas faculdades que existem por aí que prezam apenas o lado artístico em detrimento do técnico, porque o mercado de trabalho acaba remunerando melhor os técnicos do que os artistas.

E é fácil entender os motivos, um serviço técnico é simples de mensurar e quantificar, enquanto que um trabalho artístico pode valer de zero ao infinito, dependendo do tamanho do bolso e do interesse de quem está pagando. Além disso, uma construção pode ser feita sem nenhuma preocupação artística, mas precisa pelo menos de uma “plantinha de prefeitura” para acontecer, e quem faz esta “plantinha” é um profissional técnico, e não o artista.

Mas agora, uma vez que você, arquiteto, está formado e preparado para enfrentar o duro mercado de trabalho, o jeito é lutar com todas as armas de que dispõe. E uma das alternativas mais eficientes é não se limitar apenas aos projetos ou às aprovações nos órgãos públicos, mas arregaçar as mangas e ir para o canteiro de obras, tornando-se um administrador de obras. Pense conosco:

O arquiteto como administrador de obras

A profissão de arquiteto é definida legalmente no Brasil conforme a família ocupacional código 2141 da CBO2002 (Classificação Brasileira de Ocupações) do Ministério do Trabalho e Emprego para “Arquitetos e urbanistas”, onde ficou estabelecido que arquitetos são os que:

“Elaboram planos e projetos associados à arquitetura em todas as suas etapas, definindo materiais, acabamentos, técnicas, metodologias, analisando dados e informações. Fiscalizam e executam obras e serviços, desenvolvem estudos de viabilidade financeira, econômica, ambiental. Podem prestar serviços de consultoria e assessoramento, bem como estabelecer políticas de gestão.”

Como se vê, a fiscalização e execução de obras e serviços faz parte legal da atribuição do arquiteto e são regulamentados por normas específicas, em especial pela resolução nº 1010 do CREA/CONFEA (de 22 de agosto de 2005) que dispõe sobre a regulamentação da atribuição de títulos profissionais, atividades, competências e caracterização do âmbito de atuação dos profissionais inseridos no Sistema Confea/Crea para efeito de fiscalização do exercício profissional. Essa fiscalização e normatização da atividade de arquiteto passará a partir de janeiro de 2012 para o CAU – Conselho de Arquitetura e Urbanismo – mas enquanto isto não acontece o exercício profissional do arquiteto continua subordinado ao CREA da região.

Independentemente desta parte legal, o arquiteto pode e deve não se limitar apenas à parte de projeto e planejamento das obras. O ideal mesmo é que ele comece a cuidar das obras em si, cuidando da sua fiscalização e/ou administração. E isso pode ser feito não apenas na construção de seus próprios projetos mas também, porque não, na construção de projetos feitos por outros arquitetos e engenheiros.

E não é só o aspecto financeiro que conta neste caso. A fiscalização ou administração das obras caem muito bem para que o arquiteto possa certificar-se de que a execução siga respeitando á risca o projeto, o que vai beneficiar não apenas a si mesmo mas também ao seu contratante. Analisemos estes dois aspectos:

As vantagens do arquiteto administrar obras: o aspecto financeiro

A tabela de honorários do CREA estabelece que o arquiteto deve cobrar uma certa porcentagem por seus trabalhos de projeto e planejamento de obras. O grande problema é que esta tabela é apenas uma referência, contam-se nos dedos da mão os profissionais que conseguem efetivamente cobrar estes preços – e receberem. A esmagadora maioria dos arquitetos, quando consegue serviço, precisa cobrar apenas uma pequena parcela desta tabela ideal.

Tomemos o exemplo de uma residência, um dos trabalhos mais comuns feitos pelos arquitetos. Quando consegue vender um projeto completo, o arquiteto vai cobrar algo como 5% do valor da obra. Digamos que seja uma residência de 200 m² ao custo unitário de R$ 1.000 o m², valor total da obra R$ 200.000 e o arquiteto vai receber algo como R$ 10.000 para trabalhar meses a fio naquele trabalho, arcando com despesas fixas no escritório e outras despesas como estagiários, desenhistas, projetistas, computadores, programas, aluguel, telefone, internet e muito mais. No final sobra muito pouco para suas despesas pessoais como moradia, despesas com os filhos, alimentação e serviço médico.

Nesta mesma obra, a maioria dos proprietários não se importa de pagar 15% como taxa de administração para o engenheiro que vai construir. O engenheiro vai receber, portanto, algo como R$ 30.000 e não vai gastar muito mais coisa do que seu tempo e das despesas com seu veículo, nada de administrar um exército de subcontratados como faz o arquiteto.

Outro exemplo, desta vez bem maior: determinada incorporadora adquire um terreno e para construir um edifício de apartamentos. São 25 andares com 4 apartamentos por andar, ou seja, 100 apartamentos de 70 m² de área compartilhada para cada um, resultando numa área total construída de 7.000 m² que demandarão um investimento na obra de algo como R$ 7.000.000. O escritório de arquitetura que fará um projeto desses terá sorte se conseguir cobrar 2% deste valor para fazer os projetos executivos, ou seja, receberá uns R$ 150.000 e desse valor precisará pagar os projetos de estrutura, instalações, paisagismo e os subcontratados do projeto arquitetônico.

Ao mesmo tempo, a construtora que fiscalizará a obra não tem muita dificuldade em cobrar entre 5 a 10% do valor, ou seja, vai receber seus R$ 500.000 que é mais ou menos a mesma coisa que vai ganhar a imobiliária que venderá os apartamentos. Ou seja, o arquiteto vai trabalhar tanto quanto, mas terá muito mais despesas e ganhará muito menos.

O arquiteto facilita a vida de todo mundo, ou seja, vai cuidar da bagunça legal das aprovações nos órgãos públicos, cuidar de todos os aspectos relativos à qualidade da edificação, vai torná-la apresentável para que então uma construtora pegar os desenhos e efetuar a construção, e depois vem um corretor engravatado ganhar muito mais do que o arquiteto. Claro que estas são as contingências do mercado, mas a pergunta que estamos querendo fazer é: porque o arquiteto “rói o osso” e depois deixa o filé para os outros? Porque o arquiteto não cuida da construção também, afinal, será muito mais fácil para ele que conhece a fundo aquela obra?

As vantagens do arquiteto administrar uma obra: preço e qualidade da execução

Não é apenas este aspecto financeiro que nos leva a afirmar que o arquivo deve sujar os pés de barro e fazer a obra também. Existe também a questão da responsabilidade pelo projeto e pela execução, sem falar do acabamento que o arquiteto, como especialista treinado no assunto, pode fazer melhor do que ninguém. É óbvio que existem engenheiros e empreiteiros que primam pelo capricho e bom acabamento, mas o arquiteto tem aquele “algo mais”, aquela “corzinha” no lugar certo, o “detalhezinho” diferente que dá um toque especial, coisas que, no contexto geral da edificação, farão uma grande diferença na hora da venda do imóvel ou para quando o usuário for efetivamente utilizar aqueles espaços.

Não estamos desmerecendo os outros profissionais, acontece que assim como o arquiteto nunca vai projetar um viaduto como um engenheiro civil, um engenheiro não recebe o treinamento estético e funcional oferecido pelas escolas de arquitetura. Assim, já que o arquiteto pode legalmente cuidar da administração de obras, porque não fazê-lo?

Existe uma primeira resposta á esta questão, que é a tradição da profissão e que é passada em muitas das escolas de arquitetura, em especial aquelas que primam por desenvolver mais o lado artístico e filosófico da carreira do que seu aspecto prático. Pelo lado dos arquitetos mais antigos, muitos dos quais são professores nas escolas tradicionais, nutrem até mesmo um profundo desprezo por qualquer atividade ligada à construção, preferem ficar discutindo a filosofia do projeto e deixam a obra para um engenheiro qualquer.

Só que este engenheiro qualquer é que vai fazer a obra, quase sempre desrespeitando o projeto em favor de uma execução mais simples e barata, e ainda por cima é quem vai ganhar mais, juntamente com o corretor. Assim, arquitetos, vamos arregaçar as mangas e começar a entender também da obra!!!! Você verá que o conhecimento da parte prática das construções vai permitir não só um maior conforto na parte financeira, mas vai também facilitar as suas atividades de projeto e aumentar a clientela.

Por onde começar, se na sua faculdade não ensinaram a administrar obras?

A grande maioria das escolas de arquitetura não se preocupa com a parte prática da carreira, e dentre as que se preocupam são ainda menos as que ensinam práticas de administração de obras tal como deve ser visto pela ótica do arquiteto.

Mas qual é a diferença? Construção não é tudo igual? A resposta é “sim” e “não”. Existem certas coisas que não mudam, o pedreiro que assenta tijolos numa obra residencial administrada por um engenheiro é o mesmo que vai levantar paredes na construção de um hospital que está sendo administrada por um arquiteto ou outro profissional qualquer. A contabilidade da obra é a mesma também, trata-se apenas de relacionar as despesas de um lado e as entradas do outro. A diferença começa na hora das compras, do contato com o cliente e com os profissionais responsáveis pela execução dos diversos serviços.

O arquiteto tem fama de ser “chato” numa obra, mas a fama é injusta. O fato de alguém ser detalhista e exigir um trabalho caprichado e bem feito não significa que ele esteja errado ou querendo atrasar o serviço. Às vezes o encarregado da obra entra num conluio silencioso com determinado profissional que está executando um serviço, só para ganhar algum tempo na execução e receber antes uma verba qualquer. Um exemplo: o administrador da obra percebe que determinada parede revestida de azulejos ficou um pouco fora de prumo, mas faz de conta que não viu ou aceita assim mesmo, porque está com pressa.

Mas é a pessoa que vai usar aquela obra que vai ter que se entender com uma porta que não consegue ficar aberta sozinha. Outro exemplo comum: o azulejista vai assentar um piso e não se preocupa em dar o caimento em direção ao ralo, como tem que ser. O administrador nem se dá ao trabalho de verificar os níveis, aceita o serviço de qualquer jeito e depois é a dona de casa que precisa secar o chão do banheiro com panos, pois a água corre ligeirinho para longe do ralo.

Um arquiteto tem um olho clínico para este tipo de defeito, e mais afinado ainda para detalhes de acabamento que os engenheiros, por sua própria formação, não se sentem na obrigação de perceber. Por exemplo, um arquiteto e, mais especialmente as arquitetas, não aceitariam uma pintura com variação na tonalidade ou um azulejo mal colocado. Nada de pias fora da altura correta ou vidros colocados de qualquer jeito. Este tipo de detalhamento está embutido na alma do arquiteto e de seus colegas que exercem funções similares, como o decorador e o paisagista.

Bem, depois de tudo o que dissemos, se você é arquiteto, deve estar se perguntando: “OK, eu gostaria de começar a cuidar das minhas obras, mas por onde começar?”. A administração de obras tem um lado técnico, que pode ser aprendido nas escolas, e tem outro lado que depende de prática, que precisa ser aprendida por cada um, lidando no dia-a-dia. Ajuda muito se tiver alguém para dar umas dicas, mostrar o “caminho-das-pedras”, e é isso o que eu tenho feito no meu curso de “Administração de obras para arquitetos”. Procuramos montar turmas pequenas para que possamos oferecer um atendimento personalizado, para demonstrar algumas técnicas simples mas eficientes para controlar corretamente uma obra, desde o primeiro contato com o cliente até a obtenção do “habite-se” e a entrega das chaves ao proprietário.

Este curso vem sendo ministrado em dois locais:
  • Em São Paulo, no Centro Universitário Belas Artes (informações sobre datas, horários, programa e valores estão no site da Belas Artes, clique aqui)
  • Em Florianópolis, no ICT (Instituto de Certificação e Treinamento, para informações sobre datas, horários, programa e valores vide www.ictfloripa.com.br
Use os links acima para obter as informações necessárias.
Caso você queira levar este curso para sua cidade, entre em contato conosco.

Publicado em 15/12/2006 às 16:55 hs, atualizado em 28/06/2016 às 17:38 hs


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NOSSOS LEITORES JÁ FIZERAM 1 COMENTÁRIO sobre este artigo:
De: L-ross (em 31/01/2013 às 11:02 hs)
Concordo inteiramente com este artigo
Sou arquiteto e trabalho há muito anos no ramo. Inicialmente eu só fazia projetos, mas depois percebi que o negócio mesmo é fazer também a construção. No início eu comecei a construir para ter certeza de que o que eu tinha projeto seria realmente construído tal como eu imaginei, mas depois percebi que a construção dá muito mais dinheiro do que só fazer o projeto de arquitetura, e hoje em dia eu prefiro atender clientes que me procuram para projetar e construir. Parabéns ao autor do artigo, é isso mesmo!

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